Brasil tem grande potencial para ampliar geração de pequenas hidrelétricas


Com 107 GW de capacidade hidrelétrica instalada, país ainda possui cerca de 40% do potencial sem aproveitamento; inventário aponta oportunidades para novos empreendimentos de menor porte em diferentes regiões.

 

O Brasil tem grande espaço para ampliar a geração hidrelétrica. Embora conte com aproximadamente 107 gigawatts (GW) de capacidade instalada, cerca de 40% do potencial hidrelétrico nacional permanece sem aproveitamento. O cenário indica oportunidades para novos empreendimentos, especialmente de pequeno e médio porte, que podem contribuir para a expansão da oferta de energia e para o desenvolvimento econômico de diferentes regiões.

Um levantamento baseado em dados públicos da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) identificou aproximadamente 16,9 GW em projetos de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e usinas hidrelétricas de até 50 megawatts (MW) em fase de estudos ambientais. São empreendimentos que ainda dependem de avanços técnicos, regulatórios e financeiros para se tornarem viáveis, mas que revelam a existência de uma carteira relevante de oportunidades.

Considerando a premissa de R$ 10 milhões de investimento por megawatt instalado, o conjunto desses projetos poderia representar cerca de R$ 169 bilhões em recursos mobilizados. Já a estimativa de 60 empregos por megawatt aponta para mais de 1 milhão de postos de trabalho associados à implantação dos empreendimentos.

Os números, portanto, não correspondem a usinas já autorizadas ou contratadas. Tratam-se de estimativas sobre projetos que podem avançar caso encontrem condições adequadas de viabilidade.

Para Lucas Pimentel, presidente da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH), o potencial identificado combina disponibilidade de recursos com capacidade técnica e industrial para ampliar a geração.

“O Brasil possui recursos hídricos, conhecimento técnico e uma indústria nacional preparada para transformar esse potencial em energia limpa, empregos e desenvolvimento regional. Temos centenas de projetos que já iniciaram seus estudos ambientais e que podem avançar se houver um sinal claro do governo para a expansão da fonte.”

Um potencial que ainda não foi totalmente aproveitado

A dimensão do potencial brasileiro também pode ser observada na comparação com outros países. Segundo referências internacionais reunidas pela ABRAPCH, a China possui o maior parque hidrelétrico do mundo, com 446 GW de capacidade instalada em 2025. O país mantém ainda uma ampla carteira de projetos em construção, incluindo usinas reversíveis.

O Brasil aparece na segunda posição, com 107 GW instalados e aproximadamente 1.600 hidrelétricas em operação. Mesmo com um parque de grande dimensão, a parcela do potencial ainda não aproveitada demonstra que a fonte continua relevante para o planejamento da expansão elétrica.

A experiência internacional também mostra que a geração hidrelétrica não se limita às grandes barragens. Alemanha, Noruega e Áustria, por exemplo, contam com milhares de usinas, muitas delas de menor porte. Na Áustria, país com área territorial semelhante à do Paraná, são mais de 3.200 usinas e uma capacidade instalada superior a 15 GW.

A comparação reforça, na avaliação da ABRAPCH, que o espaço para a hidreletricidade não se encerrou com a expansão dos grandes projetos. Para Lucas Pimentel, há oportunidades para empreendimentos de menor porte, desde que associados a critérios de eficiência e responsabilidade ambiental.

Oportunidades estão distribuídas pelo país

O inventário indica que as possibilidades de novos empreendimentos estão distribuídas por diferentes regiões brasileiras, com maior concentração no Centro-Oeste, no Sul e no Sudeste. Os principais números do levantamento estão reunidos no quadro abaixo.

Entre os estados, destacam-se Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. Goiás reúne 164 eixos de projetos e aproximadamente 2,8 GW de capacidade estimada. Em Minas Gerais, são 221 eixos e cerca de 3 GW. Mato Grosso aparece com 141 eixos e 2,2 GW, enquanto o Paraná reúne 157 eixos e aproximadamente 1,9 GW.

Santa Catarina e Rio Grande do Sul também apresentam volumes expressivos, com cerca de 1,5 GW cada. Os dados estaduais incluem integralmente projetos localizados em divisas associados a cada unidade da federação. Por isso, os valores não devem ser somados para produzir um total nacional.

Projetos precisam combinar eficiência e responsabilidade ambiental

A expansão das pequenas hidrelétricas ocorre em um contexto no qual os empreendimentos precisam conciliar viabilidade energética, responsabilidade ambiental e integração ao território.

O modelo de geração a fio d’água, por exemplo, permite a implantação de usinas com reservatórios menores, reduzindo, em determinadas condições, a necessidade de grandes áreas alagadas. A dimensão do impacto, porém, depende das características de cada rio, da área de implantação e das soluções adotadas no projeto.

Por isso, empreendimentos de menor porte também precisam passar por avaliações ambientais e cumprir as exigências relacionadas ao licenciamento. A viabilidade depende ainda das condições de conexão ao sistema elétrico, dos custos de implantação e da capacidade de aproveitamento dos recursos hídricos disponíveis.

O avanço tecnológico pode contribuir para a modernização de usinas existentes, o aumento da eficiência operacional e a adoção de soluções mais adequadas às características de cada localidade. Essas alternativas também podem ampliar a complementaridade da geração hidrelétrica com fontes como solar e eólica.

Segurança jurídica é decisiva para atrair investimentos

A existência de projetos em estudo, no entanto, não garante que eles chegarão à fase de implantação. A geração hidrelétrica exige investimentos elevados, planejamento de longo prazo e condições que permitam aos empreendedores assumir riscos.

Para Epitácio Barzotto, vice-presidente do Conselho de Administração da ABRAPCH, a previsibilidade é um dos principais fatores considerados pelos investidores.

“É muito complicado fazer investimentos de longo prazo no setor hidrelétrico sem segurança jurídica; previsibilidade nas questões regulatórias e ambientais e acesso a financiamentos em condições compatíveis.”

Segundo Barzotto, investir em geração exige capital intensivo e uma visão de décadas. Mudanças frequentes nas regras, processos ambientais excessivamente longos, dificuldades de acesso ao crédito e juros elevados podem afastar investidores e comprometer a implantação de projetos.

O representante da ABRAPCH defende que o país valorize e aproxime empreendedores dispostos a investir no potencial hidrelétrico brasileiro. Na avaliação dele, esses investidores mobilizam recursos, assumem riscos, geram empregos, movimentam economias locais e contribuem para uma matriz renovável e estratégica.

Para isso, afirma, é necessário construir um ambiente com regras claras, estabilidade regulatória, responsabilidade ambiental associada à eficiência dos processos e condições financeiras compatíveis com projetos de longo prazo.

Energia e desenvolvimento regional

Além de ampliar a oferta de eletricidade, a implantação de pequenas hidrelétricas pode movimentar cadeias de fornecedores, serviços especializados, transporte, equipamentos e mão de obra nos municípios onde os empreendimentos são instalados.

Em regiões com menor diversificação econômica, os projetos também podem representar uma fonte adicional de atividade produtiva e arrecadação. Esses efeitos, contudo, dependem da viabilidade de cada empreendimento, da qualidade dos estudos e da capacidade de integração da geração às necessidades locais.

Por serem instaladas de forma descentralizada, as PCHs e CGHs também podem contribuir para aproximar a geração dos centros regionais de consumo, embora os efeitos sobre perdas de transmissão e segurança do sistema dependam das características de cada empreendimento e da configuração da rede.

O levantamento da ABRAPCH mostra que o Brasil possui uma carteira potencialmente relevante de projetos de menor porte. Transformar essa possibilidade em novas usinas depende de um ambiente que combine planejamento energético, critérios ambientais, segurança jurídica e financiamento adequado.

Mais do que ampliar a capacidade instalada, a expansão das pequenas hidrelétricas pode ajudar a aproveitar recursos ainda disponíveis, fortalecer a indústria nacional e distribuir investimentos e oportunidades de desenvolvimento por diferentes regiões do país.

Por Gazeta do Povo
https://www.gazetadopovo.com.br/gpbc/abrapch/brasil-tem-grande-potencial-para-ampliar-geracao-de-pequenas-hidreletricas/

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