O mercado livre de energia elétrica vive uma transformação silenciosa, porém acelerada. Dados apresentados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) durante a 9ª Conferência Nacional de PCHs e CGHs, da Associação Brasileira de PCHs e CGHs (ABRAPCH) mostram que o número de consumidores atendidos por comercializadores varejistas cresceu mais de 1.700% entre 2023 e 2024.
O salto ocorre às vésperas da abertura total do mercado, prevista na Lei 15.269/2025, que permitirá a migração de todos os consumidores – inclusive os de baixa tensão – para o Ambiente de Contratação Livre (ACL) a partir de fevereiro de 2026.
“Estamos vendo uma mudança estrutural no mercado”, afirmou o diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Gentil Nogueira, ao apresentar os dados. “O crescimento do varejo mostra que os consumidores estão se preparando para a abertura.”
O que significa esse crescimento de 1.700%?
Na prática, o comercializador varejista funciona como uma espécie de “ponte” entre pequenos consumidores e o mercado livre. Ele assume obrigações técnicas e financeiras perante a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), permitindo que empresas menores (e futuros consumidores residenciais) comprem energia fora do mercado regulado das distribuidoras.
Até recentemente, migrar para o mercado livre era uma alternativa quase exclusiva de grandes indústrias. Hoje, setores como comércio e serviços lideram a migração.
Segundo dados apresentados no painel, o varejo se consolidou como principal porta de entrada para consumidores que buscam previsibilidade de custos e liberdade de negociação.

Contagem regressiva para fevereiro de 2026
A Lei 15.269/2025 determinou a abertura integral do mercado, mas estabeleceu prazos regulatórios. A ANEEL terá 24 meses para regulamentar plenamente a baixa tensão e 36 meses para estruturar o Supridor de Última Instância (SUI), mecanismo que garante fornecimento caso um comercializador saia do mercado.
Para o diretor jurídico da Abrapch, Lucas Cortez Pimentel, o movimento atual é estratégico. “Há uma corrida natural. Empresas estão antecipando a migração para garantir condições contratuais antes do novo desenho regulatório.”
A expectativa é que 2025 e 2026 registrem um novo pico de denúncias contratuais, movimento que ocorre quando consumidores deixam contratos regulados para ingressar no ACL.
Pressão tarifária e busca por previsibilidade
A expansão do mercado livre ocorre em meio a um cenário de pressão tarifária no mercado regulado. Encargos setoriais, como a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e os Encargos de Serviços do Sistema (ESS), continuam impactando as contas de luz.
No mercado livre, embora não haja isenção de encargos, há maior possibilidade de gestão contratual e negociação de prazos e preços. “O consumidor busca previsibilidade. A abertura traz liberdade, mas também responsabilidade”, destacou Gentil Nogueira.
Novo equilíbrio no setor elétrico
A abertura total deve alterar profundamente o modelo de negócios das distribuidoras e ampliar a competição entre comercializadores. Ao mesmo tempo, exigirá maior fiscalização prudencial, já que o risco de insolvência de agentes aumenta com o crescimento acelerado do mercado.
A ANEEL já implementou mecanismos de monitoramento financeiro, como o Fator de Alavancagem, para acompanhar a saúde das comercializadoras. Para especialistas presentes na Conferência, o crescimento de 1.700% do varejo não é um ponto fora da curva. É o prenúncio de uma reconfiguração estrutural do setor elétrico brasileiro.
E a pergunta que começa a circular no mercado é direta: quem estará preparado quando o mercado abrir de vez?




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