O ONS considera a expansão de 16% nas linhas e a ampliação de transformadores de subestações para enfrentar aumento da demanda.
Por mais robusta que seja, ao cobrir 99,9% do país, a rede brasileira de transmissão de energia elétrica se vê diante de desafios dos novos tempos. Absorver a crescente geração eólica e solar, sem os cortes habitualmente necessários, envolve uma equação tão complexa quanto atender a demanda vultosa de data centers e de plantas de produção de hidrogênio verde (H2V) de forma segura para todo o sistema.
O Operador Nacional do Sistema (ONS), ente responsável por equilibrar a geração de energia e a demanda a cada segundo, abordou tais dilemas no seu mais recente Plano de Operação Elétrica de Médio Prazo (PAR/PEL), que cobre de 2025 a 2029.
As soluções, sobretudo, dependem da adoção da estratégia aprovada recentemente pelo Ministério de Minas e Energia (MME), consolidadas no Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, e do êxito dos leilões da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para expandir e aperfeiçoar a malha gerida pelo Sistema Interligado Nacional (SIN).
Segundo o ONS, a capacidade instalada de energia, ou seja, a potência máxima do conjunto de usinas geradoras, alcança 240 mil megawatts (MW) no Brasil. A demanda, porém, é dinâmica — varia ao longo do dia e do ano. Sua máxima instantânea está prevista neste ano em cerca de 108 mil MW. Grosso modo, não haveria problemas. Mas eles existem e ameaçam colidir com a premissa central do sistema de “atender, com segurança, a demanda real da população”.
No âmbito da transmissão de energia, o operador considera a extensão de 28.375 quilômetros nas linhas e a ampliação em transformadores de subestações novas e já existentes. Trata-se de uma expansão de mais de 16% na rede de transmissão até 2029 que, em boa medida, responderá ao crescimento anual na demanda nos
horários de maior consumo – no início da noite – de cerca de 3GW.
O sistema elétrico, entretanto, enfrentará desafios pontuais para atender os investimentos potenciais de data centers e de produtores de hidrogênio no país – impulsionados, em boa medida, pelo amplo acesso a fontes limpas de energia.
A depender das tecnologias dos equipamentos elétricos das plantas de hidrogênio, haverá necessidade de soluções específicas para evitar impactos no sistema, segundo o documento do ONS. Os altos níveis de consumo de energia dos data centers, por sua vez, exigirão “robustas conexões ao sistema de transmissão, com elevada continuidade e confiabilidade no fornecimento”, segundo o operador.
“Há dilemas desafiadores para o planejamento setorial quanto à perspectiva de expressivo aumento de cargas para a produção de hidrogênio e o atendimento aos data centers”, reconhece a Aneel.
“Se confirmada, pode causar até mesmo a reversão do fluxo de potência nas interligações entre os subsistemas e demandar ampliações nos sistemas de transmissão regionais.”
O quadro tem sido acompanhado pela AudElétrica, auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) especializada no setor. “Os data centers puxam energia 24 horas por dia, sete dias por semana. Se, por alguma razão, um deles é desligado, derruba o equilíbrio entre oferta e demanda do sistema. A questão é atuar sem gerar um apagão”, explica Marcelo Leite Freire, auditor-chefe da AudElétrica.
A geração crescente de fontes eólica e solar, que deverá responder por 23% do total da capacidade instalada em 2028, representa outro desafio ao sistema de transmissão de energia do país. Dado o descompasso entre o momento em que a energia dessas fontes são geradas e aquele em que há maior demanda, o ONS tem determinado cortes nessa geração, conhecidos como “curtailment”.
A medida gera prejuízos bilionários às empresas geradoras e a disseminação de processos judiciais por reparação de danos contra a União. A questão de fundo, porém, está na impossibilidade da rede de transmissão suportar esse excedente de energia sem riscos para a segurança de todo o sistema.
Enquanto alternativas tecnológicas não entram no cenário – como a adoção de superbaterias alimentadas por fontes solar e eólica e capazes de prover energia, entre outros, aos data centers – e a destinação desse fluxo a outras regiões do país não for efetivada, o “curtailment” não deve parar. O ONS já divulgou suas projeções sobre cortes previstos até 2029.
Para a Engie Brasil Energia, o quadro não deixa de apontar um paradoxo. “No mesmo momento em que desligamos as fontes de geração eólica e solar no Nordeste, são acionadas termelétricas no Sudeste para atender a demanda local e preservar os reservatórios das hidrelétricas”, informa a empresa. Contorná-lo, porém, demandará tempo e investimento.
Conteúdo e imagem por Valor Econômico.
https://valor.globo.com/publicacoes/especiais/energia/noticia/2025/07/31/transmissao-e-desafiada-por-fontes-renovaveis-hidrogenio-verde-e-data-centers.ghtml




No comment