Com avanço de fontes intermitentes, pequenas centrais hidrelétricas ganham protagonismo ao assegurar previsibilidade, equilíbrio operacional e reduzir a dependência de termelétricas no fornecimento de energia.
Em meio à rápida transformação da matriz energética brasileira, impulsionada pela expansão das fontes solar e eólica, um elemento tradicional volta ao centro do debate: o papel das hidrelétricas — especialmente das pequenas centrais — na garantia da segurança energética do país.
Responsáveis historicamente pela base do sistema elétrico nacional, as hidrelétricas seguem desempenhando uma função essencial: oferecer energia firme, previsível e controlável, capaz de sustentar o funcionamento de uma matriz cada vez mais diversificada — e, ao mesmo tempo, mais complexa.
A base que garante estabilidade ao sistema
Diferentemente das fontes intermitentes, cuja geração depende das condições climáticas, as hidrelétricas operam com maior previsibilidade e controle. Essa característica permite ajustar a produção de energia de acordo com a demanda, contribuindo diretamente para a estabilidade do sistema elétrico.
Para a presidente da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH), Alessandra Torres, essa função é estrutural e foi pensada desde a origem do modelo energético brasileiro.
Segundo ela, esse desenho permite que o país enfrente períodos de estiagem em determinadas regiões com o suporte de reservatórios abastecidos em outras — uma lógica que garante segurança energética em escala nacional.
Essa previsibilidade também tem impacto direto sobre o funcionamento do mercado de energia. Para Walfrido Avila — presidente da Tradener, uma das mais tradicionais comercializadoras independentes de energia elétrica e gás natural do Brasil, pioneira no Mercado Livre de Energia (Ambiente de Contratação Livre – ACL), com mais de 27 anos de atuação, e membro do Conselho de Administração da ABRAPCH —, a regularidade da geração hidrelétrica é um dos principais fatores de estabilidade econômica do setor.
Reservatórios: mais que água, energia armazenada
Um dos principais diferenciais da geração hidrelétrica está na capacidade de armazenamento. Ao reter água, os reservatórios permitem acumular energia para uso posterior — algo que poucas fontes conseguem fazer em larga escala.
Na prática, funcionam como verdadeiras “baterias naturais”, liberando energia nos momentos de maior necessidade do sistema.
Alessandra Torres chama atenção para uma mudança silenciosa, mas relevante, no papel dessas estruturas:
“Hoje, os reservatórios não armazenam apenas água. Eles estocam, na prática, a energia gerada por outras fontes, como sol e vento.”
Essa capacidade também tem reflexos diretos no mercado de energia. Segundo Walfrido Avila, é justamente esse papel de armazenamento que ajuda a evitar distorções de preços no curto prazo.
“A geração constante das hidrelétricas reduz a volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), evitando picos causados pelo acionamento de térmicas mais caras em momentos de incerteza”, explica.
Um sistema em transformação — e sob pressão
O crescimento acelerado da energia solar e eólica trouxe ganhos importantes para a sustentabilidade da matriz, mas também alterou a dinâmica operacional do sistema elétrico.
Segundo a presidente da ABRAPCH, as hidrelétricas passaram a exercer uma função para a qual não foram originalmente dimensionadas: compensar variações diárias de geração.
“Hidrelétricas não foram concebidas para cobrir a intermitência de fontes variáveis, mas acabaram sendo obrigadas a cumprir esse papel, desbalanceando um funcionamento que antes era harmônico”, afirma.
Na prática, isso significa que grandes usinas vêm sendo acionadas com intensidade crescente para garantir o equilíbrio do sistema — especialmente no fim do dia, quando a geração solar cai abruptamente.
Esse novo cenário tem imposto maior pressão sobre os reservatórios, que foram projetados para lidar com variações sazonais, e não com oscilações diárias.
Complementaridade: a chave da matriz elétrica
Apesar dos desafios, especialistas destacam que o avanço das renováveis não elimina o papel das hidrelétricas — ao contrário, reforça sua importância.
Para Pedro Masiero Jr — fundador da Lummi Energia, empresa especializada em facilitar projetos e viabilizar investimentos no setor energético, e da CEOS, companhia voltada a construção, energia, obras e sustentabilidade para os setores de saneamento e infraestrutura —, o sistema elétrico brasileiro depende cada vez mais da integração entre diferentes fontes.
“As fontes intermitentes têm grande competitividade, mas seu valor sistêmico depende da complementação por fontes estáveis, como as hidrelétricas”, explica.
Ele destaca que as PCHs reúnem atributos importantes nesse contexto:
• previsibilidade de geração
• capacidade de regularização
• contribuição direta para a estabilidade elétrica.
Walfrido Avila reforça esse ponto ao destacar o papel das hidrelétricas como base de confiabilidade do sistema.
“Em um cenário de maior participação de fontes intermitentes, as hidrelétricas funcionam como o lastro de confiabilidade do sistema, atuando como baterias de larga escala para mitigar a volatilidade”, afirma.
Pequenas hidrelétricas: solução próxima e distribuída
Dentro desse cenário, as pequenas centrais hidrelétricas ganham protagonismo.
Segundo Alessandra Torres, há um conjunto relevante de projetos já identificados e prontos para avançar, que poderiam contribuir de forma significativa para o sistema.
“As PCHs são projetos de baixo impacto ambiental, próximos aos centros de consumo, que oferecem energia firme e serviços importantes para o sistema, como controle de tensão e redução de perdas”, afirma.
Por estarem distribuídas pelo território, essas usinas:
• fortalecem a estabilidade regional
• reduzem a necessidade de grandes linhas de transmissão
• aumentam a eficiência do sistema
Além disso, possuem capacidade de resposta rápida, sendo particularmente úteis em momentos de maior demanda.
Para Walfrido Avila, essa característica descentralizada também aumenta a robustez do sistema elétrico.
“As PCHs funcionam como uma espécie de ‘Itaipu distribuída’, garantindo o atendimento a pequenos centros urbanos e regiões rurais, com menor dependência de grandes linhas de transmissão”, afirma.
Menor dependência de termelétricas
Outro efeito direto da expansão da geração hidrelétrica é a redução da necessidade de acionamento de usinas termelétricas.
Com maior disponibilidade de energia firme e controlável:
• diminui o uso de fontes fósseis
• reduzem-se custos operacionais
• melhora-se o desempenho ambiental da matriz
Esse impacto também se reflete no bolso dos consumidores.
“A substituição de termelétricas por fontes como as PCHs pode gerar economias relevantes ao sistema no longo prazo, refletindo em tarifas mais baixas e menor custo de operação”, destaca Walfrido Avila.
O desafio do futuro: reequilibrar o sistema
Para a ABRAPCH, o cenário atual é resultado de um desequilíbrio na expansão da matriz energética ao longo das últimas décadas.
“Houve uma forte demonização das hidrelétricas, o que fez com que muitos projetos fossem engavetados, enquanto outras fontes avançaram praticamente sozinhas”, afirma Alessandra Torres.
Segundo ela, o país agora começa a perceber a necessidade de retomar investimentos na fonte hidráulica — inclusive com novas tecnologias, como usinas reversíveis, capazes de ampliar a capacidade de armazenamento do sistema.
Uma base indispensável para a transição energética
À medida que o Brasil avança na transição energética, o desafio deixa de ser apenas ampliar a participação de fontes renováveis, e passa a ser garantir que essa expansão ocorra com segurança e equilíbrio.
Nesse contexto, as hidrelétricas — e especialmente as pequenas centrais — reafirmam seu papel como base do sistema elétrico.
Mais do que gerar energia, elas atuam como elementos de estabilidade, armazenamento e integração, permitindo que a matriz brasileira continue sendo, ao mesmo tempo, limpa, confiável e eficiente.
Sem essa base hidráulica, o avanço das demais fontes renováveis tende a aumentar custos, riscos operacionais e a dependência de soluções menos sustentáveis — reforçando o papel estratégico das hidrelétricas no presente e no futuro da energia no país.
Por Gazeta do Povo.
Link: https://www.gazetadopovo.com.br/gpbc/abrapch/hidreletricas-garantem-seguranca-energetica-e-sustentam-estabilidade-do-sistema-eletrico-brasileiro/




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