“Precisamos construir mais uma Itaipu no interior do Brasil”, defendem especialistas do setor elétrico


Legenda: Ademar Cury, diretor técnico e financeiro da Abrapch: “Precisamos construir mais uma Itaipu no interior do Brasil”. (Crédito: Abrapch)

A proposta pode soar ousada, mas foi apresentada com números, planejamento e estratégia. Durante painel da 9ª Conferência Nacional de PCHs e CGHs, realizada em Foz do Iguaçu (PR), especialistas do setor elétrico defenderam a criação de um programa nacional para viabilizar pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) capaz de somar até 15 mil megawatts (MW) de potência instalada ao longo de 10 a 15 anos, o equivalente à capacidade da Itaipu Binacional.

A ideia foi sintetizada em uma frase: o Brasil precisa “construir mais uma Itaipu no interior do Brasil”. Na prática, não se trata de erguer uma única grande usina, mas de implantar cerca de 1.500 PCHs distribuídas em diferentes estados, ampliando geração, estabilidade elétrica e desenvolvimento regional.

“O objetivo é defender um programa específico de PCHs. Se construirmos mil megawatts por ano durante 15 anos, teremos uma Itaipu espalhada pelo interior do Brasil”, afirmou Ademar Cury da Silva, diretor técnico e financeiro da ABRAPCH e moderador do painel.

O que significa “uma nova Itaipu” na prática

Hoje, as PCHs e CGHs somam cerca de 6,7 GW de capacidade instalada no Sistema Interligado Nacional (SIN), distribuídas em mais de 1.100 usinas em operação. Segundo dados apresentados no painel, há 676 projetos básicos mapeados, que totalizam 9.334 MW adicionais, com potencial de R$ 111 bilhões em investimentos e estimativa de centenas de milhares de empregos ao longo da cadeia produtiva.

Para os defensores do programa, trata-se de uma política de Estado, não de governo.

“Estamos lançando um desafio. Fazer uma Itaipu no interior do Brasil é um programa que atravessa governos. É permanente”, declarou Waldfrido Avila, fundador da Tradener. “Todos os estados teriam participação. O investimento seria privado, mas precisa de coordenação e ambiente regulatório adequado.”

A comparação com Itaipu não é apenas simbólica. A hidrelétrica binacional tem cerca de 14 mil MW de potência instalada e é considerada um dos pilares da segurança energética brasileira. A proposta das PCHs é replicar essa robustez de forma pulverizada, reduzindo riscos sistêmicos e distribuindo benefícios econômicos.

Legenda: Representantes da Abrapch, BRDE, EPE, Apesc e especialistas do setor energético discutiram na 9ª Conferência nacional de PCHs e CGHS a segurança energética e o desenvolvimento que as PCHs podem trazer ao interior do Brasil. (Crédito: Abrapch)

Potência, estabilidade e serviços ao sistema

O argumento técnico central do painel foi que pequenas hidrelétricas não podem ser avaliadas apenas pelo custo médio da energia (LCOE). Segundo os especialistas, essa comparação desconsidera atributos essenciais para o funcionamento do sistema elétrico.

“O erro mais comum é comparar as fontes apenas pelo preço por megawatt-hora. A PCH não entrega só energia. Ela entrega potência, flexibilidade e serviços ao sistema”, destacou Ademar.

Uma PCH com reservatório, mesmo de pequeno porte, pode fornecer regulação de frequência, reserva girante, controle de tensão e até capacidade de black start, atributos que ajudam a evitar oscilações e reduzem a necessidade de investimentos adicionais em térmicas ou baterias.

Walfrido reforçou que o desafio é estrutural. “A PCH hoje não concorre em igualdade tributária e regulatória com outras fontes. Precisamos rever impostos, taxas e a forma de comercialização”, afirmou.

Segundo ele, uma das propostas é discutir uma nova ordem comercial, que valorize atributos como energia armazenada e geração nos horários de maior demanda, em vez de depender exclusivamente de leilões tradicionais.

Gargalos: transmissão, financiamento e engenharia

O painel também destacou que a expansão das PCHs depende de avanços na infraestrutura de transmissão, previsibilidade tarifária (TUST e TUSD), financiamento específico e melhoria nos processos de licenciamento.

“A legislação do setor elétrico precisa ser organizada. É necessário definir como será a tarifa de venda, como será a valoração dos atributos e como viabilizar comercialmente esses projetos”, afirmou Ademar.

Waldfrido acrescentou que o desafio envolve engenharia de alta qualidade. “Pequena não quer dizer simples. Hidrelétrica é sempre um projeto complexo. A qualidade da engenharia importa muito.”

Além disso, a proposta prevê estímulos fiscais durante a construção e maior integração entre estados e distribuidoras para facilitar acesso à rede.

Segurança energética e desenvolvimento regional

Para os defensores do programa, o projeto atende a duas agendas simultâneas: segurança energética e desenvolvimento regional. Como as PCHs são implantadas em municípios de menor porte, os investimentos ficam distribuídos pelo interior, gerando arrecadação local, empregos e menor perda elétrica na rede devido à injeção próxima ao consumo.

“Uma Itaipu concentrada gera benefício concentrado. Uma Itaipu distribuída espalha desenvolvimento pelo Brasil”, resumiu Walfrido.

O debate ocorre em um momento de transição energética acelerada, com forte expansão de fontes intermitentes como solar e eólica. Nesse contexto, as pequenas hidrelétricas são defendidas como ativos estratégicos para garantir estabilidade e flexibilidade ao sistema.

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