Mesmo com a expansão acelerada das fontes eólica e solar na matriz energética brasileira, o país segue deixando de aproveitar milhares de estruturas que poderiam aumentar a oferta de energia firme — condição indispensável para manter a segurança energética em meio à transição para renováveis.
A avaliação é da Associação Brasileira de PCHs e CGHs (Abrapch). A entidade diz que o Brasil vive hoje uma contradição, tendo em vista que amplia fontes intermitentes, sem dar a devida atenção para uma das bases firmes necessárias para sustentar esse crescimento.
Segundo Alessandra Torres, presidente da Abrapch, a hidroeletricidade continua sendo “a espinha dorsal do setor elétrico brasileiro”. “É a fonte que garante estabilidade, potência, previsibilidade e a tarifa mais acessível. Nenhuma matriz intermitente opera de forma segura sem uma base firme — e essa base precisa ser hidrelétrica, não térmica”, diz Alessandra.
O Operador Nacional do Sistema (ONS) já declarou que o Brasil precisará de energia firme e potência adicional a partir do segundo semestre deste ano.
Isso afeta diretamente setores altamente sensíveis a interrupções — como data centers, que não podem operar conectados a fontes intermitentes.
“Eólica e solar são fundamentais, mas não atendem sozinhas a setores críticos. Quem sustenta essas cargas são as hidrelétricas”, reforça a presidente da Abrapch.
Reservatórios são subutilizadas
Um estudo recente publicado pelo portal Terra aponta que o país possui milhares de pequenas barragens espalhadas por todos os estados — obras construídas originalmente para abastecimento, irrigação ou contenção de cheias — que poderiam ser reaproveitadas para gerar energia elétrica, isoladamente ou em arranjos híbridos (hidro + solar).
“Hoje, essas estruturas permanecem praticamente invisíveis ao planejamento energético nacional”, diz o estudo.
O documento aponta que muitas barragens já possuem infraestrutura básica, acesso e lâmina d’água, o que permitiria implantar turbinas de forma rápida e com custo reduzido. Ao adicionar geração solar flutuante ou de solo ao lado dos reservatórios, seria possível aumentar a produção e corrigir a variabilidade das fontes intermitentes.
“Isso é exatamente o que defendemos há anos. O Brasil abre mão de ativos estratégicos que já estão construídos, pagos e disponíveis. É energia limpa, firme, localizada e com baixíssimo impacto adicional”, destaca Alessandra Torres.
Nos anos 1990, as hidrelétricas representavam aproximadamente 90% da matriz elétrica brasileira. Hoje, representam apenas cerca de 55%.
Para a Abrapch, essa queda abrupta é preocupante. Com menos energia firme, o sistema perde flexibilidade, aumenta o risco de interrupções e passa a demandar acionamento de termelétricas mais caras e poluentes. “Se o Brasil quer mais vento e sol, precisa obrigatoriamente reforçar o armazenamento de água em reservatórios. Sem isso, não há transição energética segura”, afirma a presidente da Abrapch.
Projetos parados por até 10 anos
Entre os principais entraves, a Abrapch destaca a morosidade do licenciamento ambiental. Enquanto termelétricas fósseis costumam receber autorizações em poucos meses, projetos hidrelétricos podem levar até uma década para serem licenciados — mesmo sendo limpos, renováveis e oferecendo benefícios ambientais e sociais amplos.
Segundo Alessandra, há também falta de compreensão sobre o papel estratégico das hidrelétricas. “Há uma demonização equivocada da fonte. Enquanto isso, os reservatórios regulam vazões, aumentam a segurança hídrica, melhoram microclimas, fomentam o turismo e preservam o meio ambiente muito além do que é exigido de qualquer outra fonte”, explica.
O país vive simultaneamente estiagens severas, especialmente no Centro-Oeste, e enchentes históricas, como as do Rio Grande do Sul — eventos que reforçam a necessidade de reservatórios capazes de regularizar vazões.
PCHs e CGHs
O Brasil possui mais de mil PCHs já instaladas, além de grande potencial para novas unidades sustentáveis. Um exemplo é a PCH Sacre II, no Mato Grosso, instalada com participação direta da comunidade indígena Parecis, preservando cachoeiras, fauna, flora e garantindo royalties e qualidade de vida ao povo local.
“Esse é o retrato da hidreletricidade moderna: projetos sustentáveis, com forte governança socioambiental, tecnologia nacional e benefícios diretos às comunidades”, afirma Alessandra.
Entre os benefícios ambientais e sociais destacados pela Abrapch estão: projetos com vida útil superior a 100 anos e sem resíduos ao final do ciclo, reflorestamento obrigatório, que chega a ser três vezes superior à área suprimida (dados do IAT/Paraná), melhoria de microclimas e desenvolvimento territorial, apoio à piscicultura, fruticultura, turismo e agricultura irrigada, retenção e tratamento de lixo, funcionando como “filtros naturais” dos rios, monitoramento contínuo da fauna, flora e hidrologia.
“Entre todas as fontes, a hidrelétrica é a que tem o menor impacto ambiental por unidade de energia gerada. E é a única obrigada a compensar, reflorestar, monitorar e recuperar áreas de forma contínua”, diz Alessandra Torres.
Para a Abrapch, o Brasil precisa reconstruir a base para viabilizar a transição. “O Brasil tem água, conhecimento técnico e recursos naturais para ser líder mundial em energia limpa. Mas para isso, precisa recuperar e fortalecer sua base hidrelétrica. Sem energia firme, não existe transição energética de verdade,” conclui a presidente da Abrapch.




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